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domingo, 24 de janeiro de 2010

Noel e a fantasia que não desbota


ARTIGO DEZEMBRO-09

Quando se fala em Natal, hoje, o pensamento automaticamente voa na direção de brinquedos e comidas. Vivemos num tempo em que os valores de nossos antepassados se tornaram fluidos. Mas apesar dessa percepção dominante, inda existem famílias que valorizam o verdadeiro sentido do natal.
Muitos pais utilizam a figura do papai Noel como forma de ampliar as fantasias que povoam a mente das crianças. A expectativa de cada uma para este dia é fundamental, seja pela ansiedade de ganhar aquele brinquedo tão desejado ou pelo esforço para se manter acordado durante a madrugada e assim encontrar Papai Noel. Ao serem perguntadas sobre o assunto, muitas crianças colocam suas fantasias em prática quando dizem que viram o papai Noel deixando seu presente, ou mesmo, que tiveram o azar de acordar tarde, mas a tempo de ver renas voando sobre o quintal. O Natal deixa rastros de esperança e permite que muitos façam parte de um momento mágico.
Mas essa espera não está restrita ao universo da criança. Para que elas tenham introjetado tal mito foi necessário que o pai, a mãe, a avó ou alguém importante para essa criança também acreditasse um dia em tudo isso. Assim, o papai Noel é uma lembrança da infância de cada um de nós que se re-atualiza a cada Natal. A psicanálise nos mostra, mais uma vez, que os desejos e conflitos de nossa infância não terminam porque nos tornamos adultos. O que seria de nós sem nossas crenças infantis?
O ritual de dar o brinquedo no Natal representa para uma criança mais do que imaginamos. Nesse momento, ela pode unir fantasia e realidade, o seu mundo interior ao exterior. O presente tem a marca da realidade num mundo de fantasias construído para organizar de forma simbólica as vivências de conflitos e desamparos. A fantasia tem a função de organizar o mundo em que a criança vive.
Segundo Freud, a criança brinca para criar e descobrir, ou seja, brinca para poder elaborar perdas, para encenar o que ainda não compreende da sua vida, brinca para simbolizar. Então, a criança necessita da brincadeira para apoiar sua inscrição no desejo. O brinquedo assim, se transforma em outra coisa com o investimento imaginário e simbólico que a criança consegue fazer. Através do brincar, ela pode elaborar a distância entre a possibilidade e a insuficiência no desejo de ser grande.
Parece-nos que uma grande dificuldade com a qual os pais se deparam é que, depois de tornarem-se pais, muitos acreditam ter que cumprir um papel extremamente sério e responsável, não restando mais a eles a capacidade de se divertir, de brincar, enfim, sentem-se na obrigação de deixar se esvair a criança que seguramente ainda existe dentro deles, mas que insistem em deixar presa como que num calabouço, muito bem isolado sonoramente, para que suas gargalhadas de alegria não possam ser mais ouvidas. Com essa criança escondida, como poderão os pais estabelecer uma sincera relação com os seus filhos, propiciando-lhes assim um entendimento de seu mundo interior?
Os pais perguntam aos psicólogos e analistas como agir corretamente, pois cada filho é um desafio e a cada dia tudo o que já sabiam parece se modificar. Freud nos diz que a palavra está sempre em jogo, e a criança pode nos responder através dos atos do seu brincar as perguntas que lhe fazemos. É preciso suportar um brincar descomprometido de regras, pois a criança não vive num mundo pacífico, sem conflitos, então ela quer o prazer que o mistério proporciona. Talvez por isso, o presente e as historias de Natal nunca perdem seu lugar. Os brinquedos podem ficar para trás, as brincadeiras se modificam, mas as vivencias não estarão perdidas, pois sempre retornam e dão sentido à nossa vida.








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A amizade é um amor que nunca morre” (Mário Quintana)


ARTIGO NOVEMBRO-09

O fim do ano se aproxima e alguns vão ficando mais reflexivos. A essa altura já começamos a contabilizar nossas conquistas e perdas, mas que tal também lembrarmos das coisas boas que temos e conseguimos preservar? Em tempos egoístas onde o tamanho da felicidade parece estar no tamanho da conta bancária e naquele requisitado compromisso social que este ano você finalmente conseguiu ser convidado, não podemos esquecer que o que realmente importa ou pelo menos deveria importar ainda “são outros quinhentos”. Por que não agradecer, por exemplo, a conquista ou permanência de uma grande amizade que por mais um ano sobreviveu ao corre-corre, ao mundo virtual de orkuts, facebooks e e-mails da vida? Aquela amizade que a cada dia supera distäncias, fofocas, diferenças e os desentendimentos nossos de cada ano?
Psicanaliticamente, eleger alguém como amigo vai além de encontrar um parceiro disposto a escutar de você suas dores e amores. Quando existe amizade, é porque de alguma forma essas pessoas compartilham algo. Nos identificamos com uns e não com outros por componentes de admiração e sintonia que podemos enumerar, mas também por questões que tem muito de nosso inconsciente. Nossas relações de amizade, tem a ver com nossos percursos iniciais, momento em que experimentamos o prazer sentido ao receber afeto daqueles que nos cuidam. Os primeiros laços que construímos de afeto surgem dentro do berço materno, e conforme nos desenvolvemos, nos socializamos, desperta uma necessidade de nos relacionarmos no círculo extra-familiar, ao qual se torna essencial para o processo de subjetivação. É a nossa jornada na busca de identidade, o encontro entre as pessoas nutrido a partir de um sentimento que é a amizade.
Buscamos ter um amigo, porque aquele amor recebido por nossa mãe, na tenra idade já não é mais único para nós, pois ela começa a se interessar por outras coisas além de nós, e como forma de tentar reparar esta marca, estabelecemos o laço da amizade. Os traços que se fixam inconscientemente a partir das nossas primeiras relações serão fundamentais para as futuras buscas de amizade.
Mergulhar numa amizade implica em abertura para o outro, a possibilidade de se deixar invadir pela troca, sem que isso atrapalhe nossa subjetividade. A amizade consente a busca das diferenças, aperfeiçoa nossas particularidades, espera de nós o insólito a cada contato, mesmo já conhecendo cada atitude um do outro. Isso não é tão fácil assim!
Para escrever este texto, não foi apenas o fim do ano, mas a perda de uma pessoa querida que nos fez pensar no valor que deve ter uma amizade. Em um trágico acidente foi perdido um amigo, um irmão, um filho, uma alegria, um sonho, uma aventura, uma liberdade. Perdemos o Alexandre! Mas finalizamos com uma frase de Mário Quintana que faz com que pensemos que as coisas materiais são efêmeras, iniciam e acabam em um processo cíclico, mas os sentimentos perduram dentro de nós até o fim. “A amizade é um amor que nunca morre”.

“Brincar também é coisa séria”


ARTIGO OUTUBRO-09

Pensar na infância é pensar em uma fase do desenvolvimento com típicas necessidades. Sabemos o quanto uma criança precisa ser cuidada, olhada, investida. Mas nem sempre foi assim. A história da criança passa pela história humanidade. Em outros tempos, a criança era vista como uma espécie de adulto em miniatura: tinha vida sexual ativa, trabalhava e muitas vezes não era valorizada, pois não tinha força para executar suas tarefas. Ainda bem que não paramos no tempo e hoje a situação é bem diferente, apesar das faltas ainda marcantes em relação ao que realmente elas necessitam para um processo de constituição saudável.
A criança passou a ter seu lugar delimitado, passou a ser reconhecida como sujeito com necessidades específicas e o brincar inclui-se como fator primordial para a criança, passando a ser objeto de estudo de psicólogos e psicanalistas, como uma forma de comunicação dos seus desejos e conflitos.
Infelizmente, com a correria do mundo cotidiano, os pais acostumam seus filhos desde cedo a ter uma agenda recheada de tantas obrigações: é a escola, depois o reforço, depois a natação...ufa! A criança acaba não tendo tempo nem para brincar.
A brincadeira não existe apenas para as horas vagas da criança, afinal de contas, brincando, as crianças repetem, constroem, destroem, inventam, na tentativa de criar sentido para seus atos, para seu “querer dizer”. Brincando, ela representa sua historia, encontra oportunidade de expressão, de manifestação do que realmente esta sentindo e assim pode falar de algo que é sério para ela.
A criança, através da brincadeira, cria um mundo para si, podendo ter a onipotência de ser quem quer, quem deseja, ou mesmo o que os outros desejam que ela seja, sem exigências sociais. Ela pode também eliminar seus impulsos agressivos, por exemplo, sem ter que dar satisfação do porque faz aquilo. O brincar, para a criança, tem um significado tão importante quanto trabalhar, se comunicar, se relacionar afetivamente, para o adulto. A partir da brincadeira, a criança passa a gerar sua realidade interna e externa, passa a desenvolver algo que será fundamental para sua personalidade, a fantasia.
Para a psicanálise, a importância não está no uso de teorias e técnicas específicas para trabalhar com crianças, apesar da enorme relevância atribuída a fase infantil. Na realidade, a atuação é feita através da escuta; escuta baseada no discurso próprio da criança, capaz de atingir inclusive, as formações de seu inconsciente, por meio de seus relatos, sonhos, desenhos e outras formas lúdicas,
Não é tarefa fácil penetrar no universo infantil e muitas vezes os próprios pais sentem-se perdidos e desamparados por não conseguirem perceber o que está sendo manifestado pela criança. Durante o processo analítico, a criança pode fazer contato com suas dores em um ambiente seguro, podendo obter grandes resultados psíquicos. Nesse momento, a criança não pode estar desvinculada de uma escuta dos pais, do lugar que os mesmos a concebem. Que fantasias construíram a respeito desta criança que apresenta algum sintoma? Ela, por sua vez, não sentará no diva para ficar falando de seus devaneios, de suas angustias, de seus sofrimentos, assim como esperamos de um adulto. Ela irá brincar e através da brincadeira, passará por seus fantasmas, sinalizará o que está errado, demonstrará, assim, como se comporta e como se dá sua relação com pai e mãe.

A dor que o riso esconde


ARTIGO SETEMBRO-09

Todo mundo conhece alguém que costuma levar ao pé da letra a expressão “perde o amigo, mas não perde a piada”. Pessoas assim manifestam o bom humor através do sarcasmo, de brincadeiras de duplo sentido, ironias e piadas com origem agressiva, que servem mais para denegrir uma pessoa do que para divertir.
Brincar com as formas que o mundo se apresenta ganha cada vez mais espaço, inclusive como meio de auferir lucro. Atualmente, vemos na televisão programas cujo foco é fazer os outros rirem de alguma “vítima” escolhida para ficar na berlinda. Ironiza-se o pobre, o feio, a patricinha consumista , o político apegado ao dinheiro alheio... As pessoas identificam-se com estes personagens da vida real, e mesmo que seja cada vez mais difícil, ainda encontram uma maneira de achar graça da própria desgraça.
Vivemos no tempo da depressão e dos antidepressivos, tempo de uma sociedade tomada pela velocidade e pela euforia. Mas ao questioná-la, o sujeito parece estar fadado à incompreensão da maioria. Sente-se, então, na obrigação de viver as 24 horas do dia “feliz”. Mas como viver sempre feliz na miséria, na exploração sem recompensa ou mergulhado nas próprias angústias? É impossível!
O humor, na categoria dos chistes (que tem como significado malícia disfarçada que um dito ou escrito encerra), é considerado por Freud como uma das quatro formações do inconsciente, ou seja, o inconsciente comparece através de brincadeirinhas que para muitos não tem sentido nenhum. Sabemos o quão doloroso é ter que lidar com a realidade, assim, o humor surgiria como forma de alívio dos sofrimentos da vida. Através da piada posso falar aquilo que sinto sem ter que me sentir responsável por nada. Afinal, tudo não passa de piada,não é mesmo? A cena poderia ser trágica se não fosse cômica, muitos se aliviam pensando assim. Freud considera os chistes como liberdade aos desejos sem a preocupação com as normas sociais e da ética.
O humor pode ser uma via de fuga sem volta, pois muitos se utilizam das piadas e trocadilhos como forma de encarar até mesmo seus problemas mais sérios, com anedotas sobre si mesmo. Mas tudo tem sua medida. Não podemos transformar tristezas da vida em algo que precisa a todo custo ser domado. É preciso vivenciar perdas e sofrimentos num processo natural que, aos poucos, no seu tempo, vai se elaborando.
Quando a tempestade passar, aí sim, dê uma boa gargalhada.

"Não fica louco quem quer "


ARTIGO AGOSTO-09

Nunca se falou tanto sobre a esquizofrenia no Brasil. O motivo da popularização do tema, claro, é um personagem da novela das 8 que apresenta tal comprometimento psíquico.
Sabe-se do impacto da mídia na vida das pessoas: basta estar na televisão para virar assunto de debate nacional, o que, diga-se, é muito bom, mas quando o drama da telenovela se apóia no conhecimento do caso real. Assim, aquilo que sempre ficou restrito aos especialistas, passa a ser disseminado para a grande massa, e as doenças mentais são ressignificadas.
O personagem atual tem caracterizado sintomas importantes, com escutar vozes, ver coisas que não existem, ter a idéia fixa de perseguição. Esse sintomas fazem parte do quadro clínico da esquizofrenia, mas não são suficientes para caracterizar tal patologia. O que a novela retrata, é que o personagem desencadeou seus sintomas de alucinação e delírio a partir de um conflito muito intenso familiar, o que acaba sendo muito simplista para definir que a causa da loucura está apenas aí. Iniciamos nosso texto com uma frase célebre do psicanalista Jacques Lacan: " Não fica louco quem quer". Para a psicanálise, o fato de haver eventos na vida da pessoa que podem ser tidos até como "enlouqucedores" não significa que sejam suficientes para determinar que tal pessoa ficará, digamos, louca, mas acontece com aquela que possua uma "estrutura psicótica". Isso demonstra então que um sujeito antes de entrar em surto, comporta-se como aparentemente "normal", é como se o mesmo estivesse caminhando com uma bengala e de repente esta bengala se quebra e ele cai em surto.
Existem alguns comportamentos que todos nós cometemos em nossa vida, como falar sozinho, perder alguma coisa ou mesmo esquecer de algo. Isso sempre intrigou a Freud, que não acreditava na ocorrência acidental das coisas; eram manifestações do nosso inconsciente. Desta forma, o que a psicanálise sempre veio nos trazer a partir de Freud é que nada acontece por acaso, tudo tem uma explicação que faz parte da nossa história de vida e que precisa ser tratado com apoio de uma equipe multiprofissional.
Com a família e pessoas mais próximas, a relação torna-se complicada, pois não é nada fácil conviver com um psicótico, principalmente pela angústia em não conseguir mais reconhecer aquela pessoa de antes. Muitas vezes, o sujeito não aceita que está doente e que precisa de um tratamento adequado.
Nesse momento, cabe a família contornar tal situação. Não adianta afirmar que aquela pessoa (ou “monstro”) que ela está vendo simplesmente não é real. A atuacão nos cuidados com um psicótico começa e termina em casa e requer muita paciência. Na maioria das vezes, a familia também precisa de apoio para lidar melhor com essa nova realidade que vão ter que enfrentar.
Apesar de estar na novela das oito, em revistas, livros e pincipalmente ao nosso redor, ainda existe um preconceito absurdo sofrido por quem tem ou convive com a psicose. É comum sentir um estranhamento ao nos depararmos com um sujeito que por exemplo diz que acha que está sendo perseguido ou observado por câmeras escondidas, quando eles verbalizam que alguém dentro de sua mente está falando por ele, está lhe dando ordens, ou que, ao conversarem, apresentem idéias confusas, desorganizadas, desconexas. No lugar do estranhamento, devemos entender que essas pessoas precisam de apoio e tratamento para um possível retorno ao convívio em sociedade.

Quando o medo vira fobia


ARTIGO JULHO-09

Todos nós já sentimos medo em algum momento da vida. Ainda na infância, nos deparamos com situações, objetos e até fantasias que despertam nosso temor. Temos medo do escuro, de altura, da morte, de aranha e até de sermos abandonados.
É normal que este sentimento exista em cada um de nós. Mas pode chegar um preocupante momento no qual o medo se torne intenso, transformando-se em algo mais grave, como a fobia.
É preciso fazer aqui uma distinção entre o medo e a fobia.
O medo é um sentimento que nos avisa quando a situação exige uma atitude de fuga ou de ataque e o nosso organismo se prepara para uma ação rápida, forte, intensa. É um sentimento fundamental para a proteção de nossa espécie, pois surge diante de algo iminente, apropriado à situação a qual representa - diante de uma cobra venenosa, ou um ladrão em sua casa, por exemplo. Já a fobia, é um medo exagerado e desproporcional, pois surge diante de algo que não representa perigo, causando enorme angústia, principalmente quando paralisa o sujeito.
Quando somos crianças, são comuns os sentimentos ambivalentes, principalmente em relação aos nossos pais. Amamos o pai que nos dá carinho, amor, mas, ao mesmo tempo, somos tomadas pelo ódio quando este mesmo pai nos nega algo, nos impõe regras, limitações aos nossos desejos. Para a criança é muito angustiante lidar com tal ambivalência, com essa culpa por sustentar sentimentos hostis pelas pessoas que ama. Suprimir sentimentos, porém, não é o mesmo que descartar um objeto concreto. Jogou fora e tudo está resolvido. Não, não é assim. Os sentimentos se preservam dentro de um “recipiente” de memória intitulado inconsciente. É bom destacar que nem sempre tal operação ocorre de maneira satisfatória. Muitas vezes, o sentimento reprimido (o sentimento hostil, por exemplo) se desloca para um objeto externo, pois é mais fácil lidar com a aversão a qualquer objeto do que com nosso pai, não é mesmo? Basta apenas a criança se afastar de tal objeto que ela estará protegida. Se a fobia é comum e transitória na infância, ela se torna um problema quando atinge a idade adulta. E como nos lembra o psicanalista Laplanche, a fobia é consequência de um “resíduo irresolvido” da história de vida do sujeito. A pessoa desloca a angústia de uma situação insuportável para outra que aparentemente não tem nada a ver.
Em mês de férias, muitos podem estar se deparando com o pavor sentido diante de certas situações. A fobia de avião, por exemplo, pode inclusive impedir uma viagem com a família. Sentir medo antes de embarcar é natural, mas não conseguir entrar no avião ou mesmo ter palpitações, sudorese, um medo exacerbado, aí é preocupante. Tal medo pode estar associado a outros fatores como medo de acidente, de altura ou de ficar em local fechado. É claro que muitos acabam dando um jeitinho, fugindo do objeto fóbico até onde pode, porém, o sujeito não pode esquecer que existe um momento em que tanto medo pode paralisar sua vida, causando prejuízos ainda maiores. Nessa hora, o importante é reconhecer que algo realmente está errado. Precisamos “encarar” nossos medos e entender o real motivo de tanto temor, buscando ajuda de um profissional, como psicólogo ou analista.

Qual o sentido do amor?


ARTIGO JUNHO-09

Ah, o amor! Tema intrigante e preferido dos apaixonados, é também assunto comum em mesas de bar, livros, pesquisas, nos conselhos entre amigos e em consultórios psicológicos e psicanalíticos. Não por acaso, todos já sentimos um grande amor- seja ele pela mãe, alvo do nosso intenso amor inicial; seja pelo amiguinho da escola, quando ainda nem sabemos definir tal sentimento; aquele amor sofrido que muitas vezes nem é correspondido; e por que não, o amor que nos toma quando entramos em processo analítico, conhecido como amor transferencial? Amamos nossos pais, filhos, irmãos, amigos, companheiros, analistas, mas principalmente, amamos ser amados. Freud, em seus textos, muito nos disse sobre o amor. Para ele, a escolha de quem amar tem a ver com repetição. Temos uma demanda de amor que vem desde o início de nossas vidas: precisamos que nossa referencia materna nos transmita seus cuidados e afetos e isso se manterá durante nossas vidas, quando, inconscientemente, repetimos aquela relação primeira em nossos futuros relacionamentos, na busca por felicidade. Também podemos amar baseados em um amor narcisista, quando procuramos alguém que é como somos, como fomos ou mesmo gostaríamos de ser. Ao nos apaixonarmos, idealizamos nosso parceiro, buscando nossas características nele e quando não encontramos surge então a frustração. É preciso ter certo jogo de cintura para entender que o que buscamos é humanamente impossível. Afinal, não existem duas pessoas idênticas. Muitos acreditam no amor romântico, puro. A promessa de felicidade que nos é transmitida nos contos de fada, nos faz ir em busca do nosso verdadeiro amor, uma tentativa de evitar o confronto com a “dura realidade”, o mal estar próprio da condição humana. Amar e ter esse amor retribuído aproxima o sujeito da ilusão de completude. O que a psicanálise nos acrescenta é que nós somos seres faltosos, sempre nos queixaremos de algo, mesmo que nos conformemos com o que conseguimos alcançar. É só observar: não demora muito, já estaremos nos queixando de outra coisa.
Não podemos esquecer as pessoas que verbalizam que sonham em ter um grande amor, de amizade e confiança mas que tem medo de sofrer uma decepção amorosa. Quando elas se relacionam, ao temer a desilusão, passam então a sabotar a relação tão almejada, chegam a fugir de relações mais sérias e afetuosas a partir de desconfianças sem fundamentos, ciúmes exacerbados, tratando seu companheiro como sua posse, seu objeto. Que sufoco! Isso acontece por uma espécie de resistência do sujeito, na tentativa de evitar a dor de uma possível e temerosa perda. Freud afirmava: “nunca nos achamos tão indefesos contra o sofrimento como quando amamos, nunca tão desamparadamente infelizes como quando perdemos o nosso objeto amado ou o seu amor”.
O amor, porém, ainda é um sentimento muito enigmático,que muitas vezes não sabemos definir ou decifrar. Como diria Fernando Pessoa: quem ama nunca sabe o que ama / nem sabe por que ama, nem o que é amar”.