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domingo, 24 de janeiro de 2010

"Não fica louco quem quer "


ARTIGO AGOSTO-09

Nunca se falou tanto sobre a esquizofrenia no Brasil. O motivo da popularização do tema, claro, é um personagem da novela das 8 que apresenta tal comprometimento psíquico.
Sabe-se do impacto da mídia na vida das pessoas: basta estar na televisão para virar assunto de debate nacional, o que, diga-se, é muito bom, mas quando o drama da telenovela se apóia no conhecimento do caso real. Assim, aquilo que sempre ficou restrito aos especialistas, passa a ser disseminado para a grande massa, e as doenças mentais são ressignificadas.
O personagem atual tem caracterizado sintomas importantes, com escutar vozes, ver coisas que não existem, ter a idéia fixa de perseguição. Esse sintomas fazem parte do quadro clínico da esquizofrenia, mas não são suficientes para caracterizar tal patologia. O que a novela retrata, é que o personagem desencadeou seus sintomas de alucinação e delírio a partir de um conflito muito intenso familiar, o que acaba sendo muito simplista para definir que a causa da loucura está apenas aí. Iniciamos nosso texto com uma frase célebre do psicanalista Jacques Lacan: " Não fica louco quem quer". Para a psicanálise, o fato de haver eventos na vida da pessoa que podem ser tidos até como "enlouqucedores" não significa que sejam suficientes para determinar que tal pessoa ficará, digamos, louca, mas acontece com aquela que possua uma "estrutura psicótica". Isso demonstra então que um sujeito antes de entrar em surto, comporta-se como aparentemente "normal", é como se o mesmo estivesse caminhando com uma bengala e de repente esta bengala se quebra e ele cai em surto.
Existem alguns comportamentos que todos nós cometemos em nossa vida, como falar sozinho, perder alguma coisa ou mesmo esquecer de algo. Isso sempre intrigou a Freud, que não acreditava na ocorrência acidental das coisas; eram manifestações do nosso inconsciente. Desta forma, o que a psicanálise sempre veio nos trazer a partir de Freud é que nada acontece por acaso, tudo tem uma explicação que faz parte da nossa história de vida e que precisa ser tratado com apoio de uma equipe multiprofissional.
Com a família e pessoas mais próximas, a relação torna-se complicada, pois não é nada fácil conviver com um psicótico, principalmente pela angústia em não conseguir mais reconhecer aquela pessoa de antes. Muitas vezes, o sujeito não aceita que está doente e que precisa de um tratamento adequado.
Nesse momento, cabe a família contornar tal situação. Não adianta afirmar que aquela pessoa (ou “monstro”) que ela está vendo simplesmente não é real. A atuacão nos cuidados com um psicótico começa e termina em casa e requer muita paciência. Na maioria das vezes, a familia também precisa de apoio para lidar melhor com essa nova realidade que vão ter que enfrentar.
Apesar de estar na novela das oito, em revistas, livros e pincipalmente ao nosso redor, ainda existe um preconceito absurdo sofrido por quem tem ou convive com a psicose. É comum sentir um estranhamento ao nos depararmos com um sujeito que por exemplo diz que acha que está sendo perseguido ou observado por câmeras escondidas, quando eles verbalizam que alguém dentro de sua mente está falando por ele, está lhe dando ordens, ou que, ao conversarem, apresentem idéias confusas, desorganizadas, desconexas. No lugar do estranhamento, devemos entender que essas pessoas precisam de apoio e tratamento para um possível retorno ao convívio em sociedade.

Um comentário:

catarse disse...

Que pena que apenas aós a mídia se posicionar as pessoas notarem certas coisas...